Benefício para quem?
Estava conversando com o Kay outro dia sobre algo que muito me incomoda nas redes sociais — e que, entre tantos, foi um dos motivos de eu ter escolhido diminuir as interações por lá: o preconceito contra autistas.\
Sejamos sinceros, não é nenhuma novidade que isso aconteça. Muito antes do diagnóstico, uma coisa que meus amigos já haviam me alertado era que eu passaria por isso — a invalidação, o preconceito, dentre tantas outras coisas. Era algo que, concientemente, eu sabia que aconteceria.\
Mas o inconsciente faz a gente acreditar que não vai ser tão afetado.
Uma das discussões que anda muito acalourada é sobre autistas de suporte 1 terem ou não acesso à categoria de PcD — porque, para a sociedade, nós não deveríamos. Porque, veja, "quem é PcD tem benefícios".\
E eu pergunto: benefício para quem?
Se você analisa a realidade do outro mediante a sua régua, realmente, quem é "PcD" tem "benefícios". Mas, para o PcD, aquilo não é, nem de longe, um benefício — aquilo é um auxílio para que ele tenha um pouco mais de sossego na vida dele.\
Nem todos os PcDs tem os mesmos auxílios. Um autista suporte 1, como eu, nunca vai ter acesso ao que um autista suporte 3 tem e precisa. As pessoas acreditam que, por você ter um laudo, você já consegue direito à absolutamente tudo. Deixa eu esclarecer: não consegue, não. Nem quem realmente tem direito consegue. Vocês realmente acham que tem como pilantrar algo assim?\
O que mais me deixa enlouquecida na discussão toda é que, primeiro, eles só enxergam o que, na visão deles, seria benefício — como as filas preferenciais, o transporte, o direito à vagas de PcD, por exemplo — mas esquecem que todo PcD tem uma infinidade de outras coisas que enfrentam durante sua vida que fazem desses auxílios, muitas vezes, ínfimos.\
Com os diagnósticos tardios, ficou muito popular, especialmente nas redes sociais, autistas de suporte 1 fazerem conteúdo sobre. Porque, acreditem, para nós também são passos de descoberta (imagine você passar uma vida sem saber o que você tem e, de repente, as coisas fazerem sentido? Imagine você começar a se conhecer de fato depois de quase uma vida? É a situação aqui). Só que, mesmo esses conteúdos ainda são relativamente superficiais — ninguém vai te contar as dores que tem no particular. Porque toda rede social é uma vitrina.\
Eu acho que, o que mais me fez sentido, após o diagnóstico — entre tantas outras coisas — foi entender o cerne das minhas dores. Sim, dores. Não psíquicas, físicas mesmo. Vocês já tiveram, em algum momento, a sensação da sua pele doer, por exemplo? É uma sensação que eu tenho, especialmente quando estou muito esgotada — e eu recebia muitos olhares estranhos e perguntas tais quais: "como assim, a sua pele dói?".\
Outro problema muito, muito comum, são dores de estômago e problemas intestinais. São coisas corriqueiras e instantâneas: por, simplesmente, acordar um pouco mais cedo do meu horário, eu já começo a ter dores intestinais. Às vezes, porque eu comi um pouco a mais de uma comida que eu gosto. São partes das dores que eu preciso lidar com, por exemplo.
Descobri também, esses dias, que autistas são mais propensos à doenças de pele. O que explica muita coisa que eu não sabia — e por que uma simples herpes, que passa no beijo, que a galera pega quando criança, me deu manchas vermelhas no corpo todo.
Não posso esquecer, também, da minha DTM — provavelmente derivada de bruxismo. Só que, diferentemente do bruxismo comum, que acontece durante à noite, eu tenho tendência a apertar os dentes por vários motivos durante o dia (em situações de estresse), um ato involuntário, mas que me acarreta crises horrendas que persistem pro meses. Além de tonturas, dores nas costas, nos ombros, nos braços, etc.\
Muito se fala do esgotamento, porque sim, ele existe, é incapacitante, mas pouco se fala desse outro lado — e eu gostaria de acreditar que, elas conhecendo mais, entenderiam melhor. Sei que não é a verdade, porque no fim, para essas pessoas, é sobre os benefícios ilusórios que temos.\
Falei disso, também, com o meu pai — que, assim como eu, é PcD, mas por outros motivos — e a resposta dele foi: "se alguém quiser, eu cedo meus 'benefícios'. Mas terão de levar junto todas as minhas dores, a minha falta de mobilidade e tudo o que eu sinto todos os dias". E, quando eu escuto alguém falar que PcD tem benefícios, eu só consigo lembrar dele e dessa fala.\
Não somos todos iguais — nem os autistas, muito menos os PcDs entre si. Adoraria que parassem de nos jogar em uma mesma sacola, nos diminuindo e nos relapsando. Só que isso sou eu sonhando com um mundo ideal — e, especialmente nesses lugares de mídias sociais, esse ideal não existe. Foi extinguido.
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