O que a estação nos traz
— Atchoo!
Parei no mesmo instante, fitando Sora enquanto ele fungava de leve. O observei enquanto ajeitava o cachecol e as luvas, estreitando a vista.
— Está tudo bem? — perguntei, preocupado. Ele me olhou de soslaio, desconfiado.
— Está. Por que não estaria?
— Porque é raro ver você espirrar desse jeito — completei, fazendo bico. — Tem certeza que não vai resfriar?
— Haha. — Sua risada era serena, um pouco envergonhada. — Não vou, Miharu. Pode ficar tranquilo!
— Hmm… — Franzi o cenho, não acreditando.
O acompanhei até sua casa, me despedindo no portão. Suspirei quando o vi desaparecer pela porta, ajeitando o meu próprio cachecol, esperando vê-lo amanhã na escola.
Mas, como meus pensamentos eram certeiros, Sora não veio à escola no dia seguinte.
E eu estava puto.
— Aquele idiota ficou resfriado mesmo. Eu sabia que isso ia acontecer! — reclamava enquanto socava as coisas na minha bolsa, me preparando para ir à sua casa. — Ain, pode ficar tranquilo! Imagina se eu ficasse de verdade.
— Miharu. — A voz da minha mãe soou à porta. Olhei por cima dos ombros e ela estava sorrindo, parecendo se divertir. — Já deixei a sopa preparada para você levar. Só tenha cuidado, porque ela está quente, tudo bem?
— Obrigado, mãe. — Suspirei, terminando de fechar a bolsa. — Eu… provavelmente vou dormir pela casa do Sora. Não se preocupe comigo.
— Eu sei, querido. — Seu olhar era compreensivo, incentivador. — Espero que se divirta na medida do possível!
Vou me divertir, sim, pensei, enquanto ajeitava meu casaco, cachecol e luvas. Depois de eu brigar com aquele idiota por ter mentido pra mim.
Depois de todas as coisas ajeitadas e a mala a postos, desci, peguei o recipiente com a sopa que minha mãe havia preparado, me despedi dos meus pais e saí, andando devagar pelas ruas frias do começo da tarde.
Apesar do clima, tudo ainda estava movimentado naquele horário — para a minha surpresa, porque imaginava que, com exceção do comércio local, as outras pessoas iriam preferir ficar em casa.
Encontrei alguns colegas pelo caminho, cumprimentando-os com acenos. Não parei para jogar papo fora, porque eu me sentia em uma missão — que não era só brigar com Sora, mas quem sabe fazer ele melhorar.
Cheguei em seu portão e toquei a campainha. Não demorou para Yukimi vir me receber, um pouco desesperado por me ver trazendo sopa.
— Eu não acredito que você deu trabalho para a Asahi desse jeito, Miharu! — reclamou, não realmente ofendido. — Preciso agradecê-la direito depois. E você também, por vir hoje. — Ele olhou para mim, suspirando. — Sabe, aquele garoto é teimoso, por isso que o resfriado piorou de ontem para hoje.
— Sim, eu sei — disse, sem rodeios. Yukimi piscou, surpreso. Depois de um instante, ele riu, como se fosse esperado de mim. — Desculpe, eu não estou feliz. Ele mentiu para mim ontem quando disse que estava tudo bem.
— Acho que não era totalmente mentira. — Yukimi tentou aliviar um pouco para Sora. — Não fique bravo desse jeito, Miharu. Vamos, pode subir, você sabe onde é o quarto dele. Eu vou guardar a sopa e mais tarde sirvo um pouco para os dois.
Agradeci a hospitalidade e pedi licença, indo ao segundo andar. O quarto de Sora era o último do corredor. Fui à passos lentos, parando à porta e dando leves batidas.
— Quem é? — Sora perguntou lá de dentro, tossindo em seguida.
— Sou eu. Posso entrar? — Sentia meu coração na boca sem motivo aparente.
— Miharu? — Surpresa na voz de Sora. — Não, não pode. — E ele falou isso sério.
Descobri o motivo do meu coração ter ido à boca, porque ele voltou como uma pedra no meu estômago.
— Sora! Vamos, não faça assim, me deixe entrar! — Ouvi sons de dentro do quarto, como se ele estivesse revirando as coisas. — Sora!
— Um momento — pediu, tossindo de novo.
Aguardei de braços cruzados, batendo o pé no taco de madeira, emburrado. Ainda estava indignado com a negativa dele — Sora nunca havia me negado entrar em seu quarto em todos esses anos. Estava me sentindo ultrajado, rejeitado, jogado de escanteio…
Até que a porta se abriu lentamente, somente uma fresta. Meus olhos brilharam no mesmo instante.
— Com licença… — Pedi enquanto entrava, encostando a porta quando estava dentro do quarto. Fiz isso no momento de assistir Sora se atirar outra vez na cama, se cobrindo todo. — Sora…
— Desculpe — começou, se ajeitando na minha direção. Foi quando percebi que ele estava de máscara. — Fiquei com medo de você entrar do nada. O resfriado piorou de ontem pra hoje. Eu queria ter ido à aula, mas o Yukimi insistiu que eu repousasse…
— Não para menos. Você não aguentaria assistir aula nenhuma assim — retruquei, indo sentar-me ao lado da sua cama, no chão mesmo. Sora se remexeu, puxando um travesseiro e o oferecendo a mim. Usei para sentar em cima, mais confortável. — Eu ainda perguntei se estava tudo bem, você mentiu pra mim… — Apoiei o rosto no colchão, próximo do seu.
Sora se remexeu outra vez, incomodado, tentando se afastar. Fiz bico e ele desistiu da ideia.
— Não era mentira. Eu realmente estava bem. Piorou ao anoitecer… — justificou-se. Suspirei, desistindo de discutir.
Não estava mais bravo, também. Era sem razão prolongar aquilo.
— Minha mãe fez sopa — comecei, levando a mão aos seus cabelos escuros, passando meus dedos por seus fios. — o Yukimi disse que vai trazer para nós depois.
— Não precisava se incomodar. — Fui descendo os dedos para o rosto de Sora, observando seus olhos azuis, percebendo como eles olhavam intensamente dentro dos meus. — Miharu…
Do nada, ele começou a tossir forte, virando do outro lado para não ficar na minha direção, ainda que estivesse com a máscara. Tossiu e tossiu, se encolhendo. Suspirei e, lentamente, subi em sua cama, ficando no espaço que ele havia deixado quando mudou de posição.
Quando Sora se ajeitou outra vez, deitado com as costas no colchão, a única coisa que ele conseguia fitar era o meu rosto — e eu olhava intensamente para ele.
— Miharu… não — negou veemente. Ergui as sobrancelhas, debochado.
— Eu nem disse nada.
— Consigo ver no seu olhar a sua ideia. Não.
— E se eu disser sim?
Ele certamente estava fazendo bico, mas a máscara me impedia de ver — ainda assim, era engraçado como suas sobrancelhas juntaram, seus olhos ficando miúdos. Ajeitei-me na cama, o corpo levemente reclinado sobre o seu.
— Miharu…
— Você já mentiu para mim ontem. Não vai me negar nada hoje — apelei, me fazendo de vítima, sabendo que Sora era fraco quando eu começava com essas ideias. — Só um, não vai fazer mal nem para você, nem para mim.
— E se você pegar meu resfriado? — Sora ponderou, apelando ao meu bom senso.
Infelizmente para ele, hoje acordei com nenhum disponível.
— Se eu pegar seu resfriado, vou tomar a sopa mágica da minha mãe e fazer você cuidar de mim — brinquei, me inclinando mais um pouco em sua direção. — Um bom acordo, não?
Sora suspirou por trás da máscara, desistente. Eu sabia só pela maneira como suas sobrancelhas relaxaram, como ele fechou os olhos, receptivo. Sorri de orelha à orelha, empolgado.
Devagar, levei a mão até a ponta da sua máscara e, lentamente, a abaixei, relevando seu rosto. Parei um instante, observando cada um dos seus traços: o contorno do seu maxilar, delicado; os cílios longos; a suavidade como seu nariz desenhava no rosto; os lábios, mais vermelhos do que o normal, provavelmente pela febre que ele teve anteriormente.
Inspirei fundo e aproximei o rosto do seu, encostando a boca na sua, um selinho leve, sutil e macio como as cobertas que estavam sobre seu corpo. Fechei os olhos para aproveitar o toque, um pouco necessitado desde ontem, sentindo falta. Sora suspirou, parecendo ele mesmo ter sentido falta disso.
Percebi como sua mão saiu de baixo da coberta, seus dedos passando pelo meu pescoço, se enroscando aos cabelos da minha nuca, as unhas passando por ali sutilmente. Suspirei, gostando do novo toque — e, no mesmo instante, senti como sua língua desenhou meus lábios, pedindo passagem. Separei-os, deixando que ela entrasse em minha boca, se enroscasse com a minha.
E isso, sim, eu senti muita saudade.
Movíamos os lábios uns pelos outros, um som estalado que estava ao pé do nosso ouvido. Fui me curvando mais sobre o corpo de Sora, suas mãos insistentes nos meus cabelos, enquanto as minhas agarravam firmemente o seu travesseiro, buscando apoio.
Estávamos entretidos no toque, quando ouvidos passos ao fim da escadaria — e, no mesmo instante, rompemos o beijo, um som alto das nossas bocas separando. Saí de cima da sua cama, voltando ao meu lugar no travesseiro ao lado dela, enquanto Sora ajeitava a máscara no rosto, a coberta sobre o corpo.
E, nem um instante após, Yukimi entrou no quarto falando:
— Meninos, trouxe a sopa que a Asahi mandou… o que vocês estavam fazendo? — questionou, a sobrancelha erguida, desconfiado.
— Nós? Nada — respondi, fingindo demência. Sora, na cama, somente tossiu, como se reforçasse a mentira.
Yukimi estreitou mais a vista, não acreditando nas palavras que saíram da minha boca. Mantive firme a minha expressão serena, sem culpa alguma — Sora, por outro lado, estava vermelho. Mas, se ele perguntasse, era só falar que estava febril, o que provavelmente não seria mentira.
Ele deixou a sopa para nós, dizendo que estaria lá embaixo se precisássemos de algo. Yukimi ainda checou para ver se Sora não estava mesmo febril, antes de sair definitivamente. Não me aguentei e, instantes após, comecei a rir, encostando o rosto no colchão para abafar o som.
— Você é uma peste — Sora reclamou, enquanto sentava-se para tomar a sopa. — Iria explicar o quê para ele, se o Yukimi nos pegasse no flagra?
— Que eu assumi todos os riscos, ué — respondi simplesmente, deitando o rosto de lado no colchão enquanto observava o rosto de Sora. Contra a luz da janela, seus traços eram ainda mais delicados, mesmo que eles estivessem cansados devido ao resfriado. — E que é impossível eu ficar longe de você, também.
— Você não precisa estar com as mãos em mim para matar sua saudade, Miharu — Sora riu enquanto me advertia, falsamente ofendido.
— Preciso, elas também sentem falta~ — cantarolei, arteiro. E o sorriso em seu rosto só aumentou.
No fim, eu só queria aquilo: um motivo para fazê-lo sorrir.
E eu usaria qualquer desculpa para isso — para ficar ao seu lado, do amanhecer ao anoitecer.
— Atchoo!
— Eu avisei — Sora reclamou, enquanto me deitava outra vez, colocando uma toalha úmida sobre minha testa. — Mas você não quis me ouvir.
— Baleu cada centavo — proclamei, vitorioso. Sora suspirou, incrédulo.
Dois ou três dias espirrando era um valor muito baixo pelo beijo que eu dei nele aquele dia — mesmo que, hoje, eu estivesse com febre, porque o resfriado em mim foi mais forte do que nele.
— Valeu pelo beijo, ou está valendo agora por que eu estou cuidando de você? — provocou, enquanto enrolava uma mecha do meu cabelo nos dedos. Suspirei, pelo carinho e pelo cansaço do corpo. — Haha, não precisa responder. Eu entendi, Miharu.
— Né… — comecei, manhoso. — Você promete que dorme aqui? Pode ser no futon do lado do meu… — Estendi a mão em sua direção, movendo os dedos, chamando por ele.
— Sim, eu prometo. — Sora pegou e entrelaçou os dedos nos meus, carinhoso. — Assim como você ficou comigo. Mas não vou pegar seu resfriado, não dessa vez.
Ri baixinho, fechando os olhos, ficando com sono — pelas noites mal dormidas, pela moleza da febre.
Pelo menos, ele estava comigo — e eu sabia que ele continuaria ali quando eu acordasse do cochilo também.
Esses nossos pequenos momentos valia todos os resfriados que a estação nos traria.
Est4ções 2026, fanficarte, temas: Inverno, resfriado
Originalmente concluída em: 08/07/2026
Última revisão: 08/07/2026
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