Toca de coelho

Por trás do conto: "Jardim de Camélias"

Estou voltando com essa série, apesar de não ser da maneira que eu gostaria de estar voltando.

Primeiramente, não deixarei esse post na descoberta do bear, porque acho que ele não se encaixa nas diretrizes de lá. Mas eu quero muito destrinchar essa fanfic, por conta de algo que me aconteceu — e eu estou até agora muito, muito brava com isso.

Hoje, vou falar de uma fanfic de League of Legends que eu fiz em 2024, a Jardim de Camélias. Para aqueles que quiserem se aventurar e ler ela, está disponível no Ao3 em português e na sua versão em inglês, também, pois ela foi um presente para uma amiga.

Importante: a partir desse momento, irei abordar temas sensíveis referentes à obra, como consentimento dúbio e incesto. Por gentileza, prosseguir com cautela.

Dados os devidos avisos, acho interessante eu esclarecer brevemente algumas coisas antes de destrinchar tudo o que me levou a criar essa história. Primeiro, para aqueles que não são envolvidos com o universo de League of Legends, vou apresentar brevemente as duas personagens dessa história: Yasuo, um samurai que carrega a culpa de ter sido acusado de assassinar o seu mestre, e Yone, seu meio-irmão mais velho, que foi assassinado por Yasuo quando tentou impedí-lo de fugir após a acusação. Caso tenham muito interesse, os links levam para os contos deles no Universo, site oficial do League of Legends.

Dadas as informações básicas sobre eles, começarei a esmiuçar sobre a fanfic. A ideia surgiu dentro de um grupo de incentivo de fanfics que faço parte tem alguns anos. A administradora soltou alguns temas e, entre eles, estava Camélias. E, sem qualquer novidade, eu fiquei inspirada para fazer algo com isso, porque amo demais flores.

Fazendo minha consulta sobre significado de flores, Camélias tem vários significados, entre os quais: desejo, paixão, admiração e perfeição. E, ainda, podem significar longevidade. Quando primeiro olhei para esses significados, pensei: "talvez, seja um excelente para trabalhar um drama".

Escolher Yasuo e Yone foi proposital, sim. Além de ser o ship da minha amiga na época, era um pouco além: o significado das camélias cabia perfeitamente na personagem do Yasuo. O conceito inicial não era belo, tampouco moral: era a ideia de um amor que surgiu da admiração, um desejo e paixão que, de tão intensos, acabam machucando, tanto para quem sente, como para quem é o receptor desses sentimentos.

Após essa escolha, eu também optei por usar a música Natsutourou como plano de fundo para compor o enredo. Porque ela fala justamente sobre isso: as lanternas de verão para a passagens dos espíritos.

Depois dessas primeiras escolhas, eu já tinha o escopo de tudo o que seria necessário para construir esse cenário. E não foi algo fácil de construir. Primeiro, pelo narrador que eu optei, que sempre é um narrador complicado, não importa quantas vezes eu o escreva. A história toda é feita do ponto de vista do Yasuo, contando como se narrasse memórias passadas, e sempre tratando o Yone na segunda pessoa — você. Essa escolha é proposital, para buscar a atenção do leitor, prendê-la, fazê-lo se sentir cada vez mais na pele do Yasuo.

A história é uma releitura do que seria o conto deles, colocando minhas próprias interpretações, ajeitando os fatos para que eles se alinhem dentro do enredo que eu queria construir. Yasuo é o filho mais novo, fruto de um segundo casamento. Ele e o Yone são filhos do mesmo pai — uma figura que não aparece, mas é citada como sendo influente. E, no início, Yasuo tinha receio de Yone.

A relação dos dois se constrói com os anos, junto ao jardim de camélias que a mãe de Yasuo cuidava na antiga casa deles — e Yasuo vai criando um vínculo de codependência com o Yone conforme vai envelhecendo. Eles passam muitas coisas juntos, desde a perda do pai, o afastamento de Yone para assumir um papel de representação e obrigação na casa, até efetivamente deixarem de viver juntos, quando Yone resolve que treinar junto a um mestre influente na região seria mais seguro a eles, pela proteção que a família receberia do clã.

Apesar de ter constantemente a presença da mãe, Yasuo é rebelde e desafiador. Toma suas decisões por impulso, se deixa levar pelos próprios sentimentos — os quais não conversa com ninguém sobre, também. Muito do que ele sente, ou deixa de sentir, são conclusões que ele toma e entende sozinho, não recorrendo a ninguém por aconselhamento.

Enquanto cresce, Yasuo confunde admiração com paixão — e é nesse momento que as coisas começam a se tornar complicadas para ele, mais do que para Yone, alheio à tudo o que acontecia.

Quando decidiu seguir os passos do seu irmão, Yasuo queria, antes de qualquer coisa, se provar capaz — de se erguer sozinho, de estar par a par com o irmão que ele tanto tinha querido e admirava. Mas ele não contava com fatos como, por exemplo, despertar a inveja do próprio irmão que ele tanto admirava, quando Yasuo mostrou-se ser o prodígio que Yone nunca seria.

Além disso, existia a influencia externa de outros alunos, o fato de estarem constantemente separados, o desvinculo que ele teve da mãe em um momento de dúvida dos próprios sentimentos. Tudo para ele, naquele momento, era intenso, incerto e ele foi se ajeitando como pôde, incapaz de recorrer até mesmo a Yone.

— Yone… — comecei, inseguro. Você me olhou no mesmo instante. — Você… já gostou de alguém?
— Huh? — Percebi uma leve surpresa em seu olhar e meu arrependimento foi imediato. — Eu gosto de várias pessoas, Yasuo. — Sua resposta foi vaga e eu imaginei que tivesse sido proposital.
— Não, Yone! Eu quis dizer–! — Senti meu rosto começar a corar e desviei o olhar do seu, a insegurança me corroendo por dentro. — Não, esquece.
— O que foi? Você tem algo que precisa conversar? — Sua voz agora era insistente, se aproximando de mim. — Yasuo, se você precisa de alguém que te escute, você sabe que eu estou aqui por você.
(…)
— Yasuo… você está gostando de alguém? — Sua pergunta foi direta. Eu inspirei fundo, mastigando os lábios enquanto buscava palavras para te responder.
— Eu… não sei. Eu não entendo — confessei e, nesse instante, eu criei coragem suficiente para te encarar.
Talvez ter feito isso naquele momento foi um erro, porque eu simplesmente não consegui mais tirar os olhos de você. Não quando comecei a reparar na curva do seu maxilar, na maneira como as mechas dos seus cabelos o contornava, como elas realçavam a cor dos seus olhos.
Eu observava atentamente o mover da sua boca enquanto você formava as palavras para me explicar, mas eu definitivamente não estava prestando atenção em nenhuma delas. Eu só conseguia reparar nos seus lábios, como eles pareciam úmidos e…
— Yasuo? Você está prestando atenção? — Sua voz soou repreensiva, fazendo eu tomar um solavanco de volta à realidade. — Pelo visto, não estava.
— Yone, eu…
— Tudo bem — Você suspirou, desistente. — Talvez não seja uma boa hora para essa conversa, não é? — Você trouxe a mão até o topo da minha cabeça, acariciando meus cabelos, delicado. — Saiba que, se quiser conversar outrora, eu serei todo ouvidos, sim?

Yasuo, mais do que ninguém, estava ciente que algo estava fora do lugar entre ele e Yone. É algo que, conforme eu construía, eu sentia mais e mais pulgente: o quanto Yasuo tinha ciência e o quanto, a todo momento, ele resistia e se culpava por tudo o que sentia.

Os conflitos internos dele são tão viscerais durante toda a contrução dessa história que é como sentir o seu desespero na pele. E, a cada momento que passa, Yasuo fica e mais e mais desesperado, receoso que alguém descubra sobre seus sentimentos por Yone.

Tudo só piora quando sua própria mãe, uma noite, o aborda, perguntando se ele tinha algo a confessar a ela.

Ele não confessa. Ele tem convicção de que viverá com isso internalizado para sempre — até o momento que a guerra chega à Ionia. E, quando a guerra chega e todos eles estão à mercê da própria sorte para sobreviver, é que tudo o que ele reprimiu, tudo o que tentou guardar, transborda como água em um pequeno copo.

— Me prometa que não fará nada que possa se arrepender depois, sim?

É uma das últimas conversas que Yasuo tem com sua mãe, antes da noite em que ele resolve pôr tudo a perder, se declarando para Yone, antes de uma iminente batalha, onde seu irmão — sua paixão, seu mundo inteiro — iria para o fronte. Nesse ponto da história, ambos são homens formados, o fantasma da guerra pairando sobre eles, e somente as camélias eram testemunhas de tudo o que aconteceu naquela noite.

O ápice da história, essa noite entre eles, é algo que tenho convicção que todos que leram (e me deram algum retorno), não entenderam: a aceitação de Yone não foi plena. Ele agiu por impulso, aceitou algo sem pensar, se envolveu como se o amanhã não fosse existir; diferente de Yasuo que, em sua mente e sonho delirantes, acreditava que aquilo faria da realidade deles algo diferente — quando ela nunca seria, de fato, diferente.

Aquela noite, eu dormi pedindo aos deuses de Ionia que tudo aquilo fosse real.
Que, na manhã seguinte, eu pudesse aproveitar mais um pouco de tudo aquilo que tivemos.
Porém, quando o Sol raiou, eu acordei no futon vazio.
Minha primeira reação foi o desespero, levantando-me em um solavanco, buscando por você em todos os cantos.
Respirei aliviado quando te encontrei mais ao fundo do quarto, terminando de amarrar o obi do seu yukata. Era como se um peso tivesse saído do meu peito.
— Bom dia, Yone — cumprimentei-o, uma felicidade que transbordava na voz.
Você, no entanto, somente levantou o olhar para mim, abaixando-o logo em seguida, não me respondendo. Ergui uma sobrancelha, estranhando.
Percebi como, em seguida, você caminhou a passos silenciosos pelo quarto, se dirigindo para a porta, ainda sem me encarar.
— Yone? — chamei por você, uma insegurança no peito, um medo banhando a voz. — Aonde você vai? Por que você não fica aqui comigo e–
— Yasuo. — Sua voz não era a mesma de ontem, meu nome soando frio, distante. — Não. Só… não.
Foi tudo o que você se resumiu a dizer, olhando-me uma última vez por cima dos ombros antes de dar as costas e caminhar para longe daquele quarto.
Naquele momento, muitas coisas passaram pela minha cabeça de uma vez só. Pensei em seguir você, mas não tinha força nas pernas para levantar. Pensei em gritar por seu nome, mas minha voz parecia não querer sair. Pensei em praguejar, mas não tinha em mim tamanha crueldade, especialmente com você.
Tudo o que consegui fazer foi apertar a colcha em meus dedos, abaixar a minha cabeça e chorar. Chorar e soluçar, como há anos eu fiz.
Mas, dessa vez, você não apareceu para me consolar.

O desfecho dessa tragédia é parecido com o final original deles, com mais drama: após a partida de Yone para o fronte, Yasuo ficou responsável por proteger seu mestre. Ele se ausentou, ciente de que poderia fazer diferença em uma batalha da linha de frente, e isso culminou na morte do seu mentor, por uma técnica que somente ele sabia.

Acusado injustamente, Yasuo planejava fugir, mas não sem antes se despedir do jardim de camélias onde cresceu. E, para o seu desespero, ele encontrou ali a única pessoa que ele não gostaria de encontrar naquela situação, uma pessoa que ele não via desde a última noite, fatídica, em que se relacionaram:

Yone.

Só que seu irmão não estava ali para conversar, sequer estava ali para ouvi-lo e entender o que havia acontecido. Yone estava ali para matá-lo em nome da honra — pelo mestre deles morto, quiçá até mesmo pelos sentimentos de Yasuo. E, desse modo, eles lutaram, cientes de que somente um poderia sair dali vivo.

E eu só pude pensar que estava ali, na minha frente, a minha vida inteira.
A minha admiração.
O meu porto seguro.
Meu irmão.
Meu amor.
(…)
Chorei e berrei, desolado. De todos os lugares, eu iria encontrar você ali. De todos os momentos, tinha de ser nesse. E, de todos os desfechos, precisava que fosse dessa forma.
Todo o meu carinho, toda a minha admiração, todo o meu amor…
Resumido ao seu corpo morto
E às camélias, de pétalas macias e um branco vibrante
Agora tingidas de vermelho pelo seu sangue.
Usei as últimas forças que tive para enterrar o seu corpo em frente a elas, fincando a sua espada no túmulo improvisado.
Olhei uma última vez para as plantas que tínhamos tanto carinho — eu, você, o pai, a mãe…
— Vocês podem viver sozinhas — comentei para elas, as lágrimas ainda marcando o rosto, grossas, pesadas. — Vocês são plantas perenes, não é mesmo? — Peguei minha espada, limpando-a em um pedaço de pano antes de guardá-la na bainha e caminhar para fora dali.
Elas iriam viver, mesmo manchadas de sangue.
Eram perenes.
Assim como era o meu amor por você.

Mais do que uma história de amor, Jardim de Camélias é um conto sobre honra e culpa. Sobre decisões erradas tomadas por todos os lados. Sobre ceder a desejos de maneira impulsiva. E sobre… punição.

Quando eu construi essa história, eu queria que todos esses sentimentos fossem aflorados. Muito mais do que o ship entre os dois, era a metáfora das flores brancas, puras, símbolo de amor, de paixão, admiração, longevidade, se tingindo de vermelho pelo sangue derramado, sangue esse da pessoa que ele mais admirou, que ele mais amou, a vida findada por suas próprias mãos.

Confesso a vocês que eu amo Jardim de Camélias. Porque ela foi uma ideia complexa, cheia de camadas, feita em um narrador difícil, para fazer uma construção que colocasse em conflito todos os sentimentos dessa personagem, que exaltasse todas as suas atitudes erradas — e como ele teria de conviver com todas elas, pelas próprias decisões impensadas que havia tomado.

Tudo isso, essa construção intensa, as notas pensadas, as metáforas, as letras miúdas da escolha de cenários… para uma única pessoa ler as tags — já que o Ao3 funciona em um sistema que indexa as histórias por tags, assim como um blog, por ser um arquivo — assumir qualquer coisa sobre e sair falando merda por aí.

Eu sou defensora ferrenha do não gosta, não leia — especialmente com fanfic, um lugar majoritariamente de experimentação, onde você testa os enredos, brinca com ideias, explora as personagens e os limites que você quer trabalhar com elas. Mas o que mais me deixa emputecida é, certamente, quando as pessoas não conseguem ficar de boca fechada e querem falar sobre algo que elas sequer leram, porque elas veem as tags, que estão ali para auxiliá-las, e querem tirar todo o trabalho alheio com base nisso.

Já li histórias que, sinceramente, era melhor nem ter aberto. Li outras, no entanto, que me marcaram até hoje. Aprendi os meus limites, do que gosto ou não gosto, lendo diversos textos. E, acima de tudo, eu tenho um crivo muito específico. Tudo precisa passar pelo seu senso crítico — e você saber que existe não um limite, mas um abismo entre a ficção e a realidade. Coisa que muitas pessoas hoje parecem não entender direito.

Por fim, deixo aqui o meu grande descontentamento, pois o comentário a essa história foi feito com o único intuito de me ofender mesmo, achando que isso colocaria a pessoa em algum pedestal moral. Eu sequer comentei sobre essa história em específico, pois não tinha nada a ver com ela — a pessoa achou ela no meu perfil e se viu no direito de tecer comentários maldosos. Pois bato o pé, pois Jarim de Camélias foi uma tragédia que escrevi para ser exatamente isso: uma tragédia. Para que, aos que se aventurassem nela, tivessem dela um enorme poema, escrito com metáforas e cenários pensados; que sentissem, à flor da pele, todas as dúvidas, toda a repulsa e toda a culpa que as personagens carregam.

E deixo aqui o convite para aqueles que querem aproveitar de uma tragédia escrita de maneira intensa, apesar de todos os spoilers que deixei nessa postagem: leiam Jardim de Camélias. Eu tenho banca para saber a qualidade e responsabilidade do que eu escrevo.

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