Toca de coelho

Quando empatia se torna uma faca de dois gumes

Essas semanas tem sido muito exaustivas, e eu coloco a culpa disso na minha empatia.

Não é a primeira vez que tenho esse pensamento — não é, também, a primeira vez que escuto que empatia demais é como uma faca de dois gumes. Eventualmente, ela se volta contra você.

Não entrando em muitos detalhes, mas talvez o suficiente: moro com uma pessoa que, de um ano para cá, tem enfrentado crises de pânico e ansiedade. Foram longos meses onde o tratamento foi passado errado pelos médicos — e tivemos de lidar com as consequências disso.

Começo desse ano, essa pessoa estava melhor. Depois de muita luta, conseguimos superar os danos colaterais deixados por uma medicação errada. As coisas pareciam estar entrando nos eixos.

De repente, porém, tudo desandou. E fazem exatas duas semanas que essa pessoa tem crises todos os dias.

Eu, por empatia, tento acolher. Só que isso tem me custado dias e dias de sono ruim. E a situação não desenvolve, porque a cada crise, ela acredita mais nas próprias ideias que criou na cabeça.

É quando a empatia se vira contra você. De alguma forma, eu perdi meu espaço e ela está dependente do meu suporte para fazer as coisas. Sem ele, ela entra em crise novamente.

As coisas pioram quando somamos à situação o meu autismo: a minha sensibilidade sensorial, o meu cansaço acumulado do dia a dia, a impossibilidade de ter um momento para me desligar.

O resultado: não consigo ser o suporte que essa pessoa precisa. E, por consequência, as crises pioram.

Vejam, não é resultado de uma falta de tratamento. Altos e baixos acontecem com quem tem transtornos mentais, é normal. O problema acontece, majoritariamente, porque limites são quebrados.

Eu mesmo não sei os meus próprios limites. Porque tenho empatia demais.

Uma vez, uma amiga comentou de um vídeo sobre empatia — e como não deveríamos ser tão empáticos. O vídeo discorria como a empatia passa pelo nosso crivo pessoal e como nos decepcionamos quando uma pessoa não atende aos critérios desse crivo na hora de ser empática.

Em outras palavras: somos empáticos porque analisamos a situação com a nossa régua de valores e esperamos receber isso de volta, mas não é assim que as coisas funcionam.

E eu tenho percebido exatamente isso: como as pessoas passam e extrapolam meus limites, porque eu sou uma pessoa empática demais e permissiva demais.

Isso me cansa de maneiras inimagináveis. E eu me arrependo todas as vezes.

A resposta seria simples: deixar de ser menos empática e permissiva. Porém, até pela minha construção autista, não é um caminho tão simples assim.

Enquanto não há uma resposta concreta para a situação, tento remediar como eu posso — e permaneço, cada vez mais, cansada.

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