Toca de coelho

Sobre meu burnout escrevendo

A minha relação com a escrita vem desde que eu me conheço por gente — bastou eu ser alfabetizada para começar a escrever histórias. Antes disso, meu processo era totalmente oral (ou seja, criava histórias e contava elas em voz alta, pois não sabia escrever ainda).

Não pensem que eram coisas elaboradas, longe disso. Todas as histórias refletiam a minha idade na época, a maneira como enxergava o mundo. Muitas das ideias, por anos, eram imaturas, os textos simples, os diálogos absurdos. Só que o eu de antigamente não tinha nenhuma amarra; ele era desprendido dessa enorme expectativa que coloco hoje. O que era muito bom, porque somente assim pude progredir e melhorar, porque eu abraçava a experimentação (e, em arte, seja ela qual for, você precisa abraçar isso e aceitar o erro, aceitar a frustração).

Se eu pensar bem, talvez eu não me frustrasse escrevendo, porque a frustração vem da enorme expectativa que nós colocamos no resultado. E, naquela idade, eu não colocava expectativa alguma além de sentar e contar uma história. O importante era isso, era o processo, independe do resultado dele ser bom ou ruim.

Outro fator muito importante nessa minha íntima relação, é que, com os anos, percebi como a escrita criativa funcionava para mim como um termômetro da minha saúde mental. Se eu escrevia de menos, era muito propício eu entrar em quadros depressivos, porque eu precisava fazer esse exercício, colocar essas ideias para fora. E, em anos recentes, eu conheci o outro lado: quando eu escrevi demais.

Foi quando tive o meu burnout de escrita.

É possível você desenvolver burnout de um hobby que, além de tudo, é seu regulador de saúde mental? Pois eu, a duras penas, descobri que sim. E os efeitos dele foram catastróficos para a minha vida. Ouso dizer que, até hoje, estou colhendo os resultados negativos de tudo o que isso me gerou.

Afinal, quanto você precisa escrever para ter um burnout de escrita? E eu vos respondo: muito, muito mesmo.

Yuui, quanto você escreveu?

Antes de revelar os números, vos explico o que se transcorreu nesses anos: pré-pandemia, comecei a cuidar da minha avó, que adoeceu exatos sete meses antes da COVID chegar ao Brasil. E, logo em nosso primeiro lock down, ela veio a falecer.

Nesse momento, eu já estava em um processo depressivo, por conta da alta responsabilidade e da impossibilidade de sentar para concluir qualquer história que fosse. E, obviamente, após o falecimento dela, eu ainda não me sentia mentalmente estável para voltar a mexer com algo que era tão delicado para mim.

Durante o lock down, eu também estava afastada do trabalho. Fui voltar meses após, já em trabalho remoto. Foi em meados de Setembro/2020 que eu conheci Genshin Impact (quem não conheceu?) e, a partir dali, eu entrei em um frenezi que iria me custar não só a sanidade, como também a minha identidade quanto escritora — uma que eu vinha construindo desde os meus quinze anos.

Uma printscreen do site Archive of Our Own, da aba estatísticas, em fundo preto, onde se pode ver a métrica 'contagem de palavras'; o restante está borrado
Imagem das estatísticas do Ao3 de 2019 — reprodução.

Comecei a postar minhas fanfics no Ao3 em 2018 — vejam, o site abrange o mundo todo, mas não é exatamente o lugar mais popular entre o público brasileiro. As pessoas ainda gostam muito do SocialSpirit, onde não tenho mais conta, por ter sido banida do site (só que isso é uma história para outro momento). O Ao3 permite você ver uma estatística anual de alguns medidores do site e, entre eles, está a quantidade de palavras publicadas naquele ano.

As outras estatísticas foram censuradas, pois não faço questão de mostrá-las e elas não são relevantes. Porém, como demonstrado, no ano de 2019 — um ano antes de tudo acontecer — eu havia escrito um total de 47.898 palavras, divididas em diversas oneshots (ou contos, como preferirem).

Isso já é bastante, não concordam? É basicamente um livro.

Uma printscreen do site Archive of Our Own, da aba estatísticas, em fundo preto, onde se pode ver a métrica 'contagem de palavras'; o restante está borrado
Imagem das estatísticas do Ao3 de 2020 — reprodução.

Em 2020, a quantidade de palavras basicamente duplicou. Fui para 82.472 palavras naquele ano, ainda investida em oneshots — que não eram exatamente pequenas. Foi um momento de transição entre o fandom de Grand Chase (o qual ainda tenho muito carinho e desejo voltar a escrever, quem sabe em breve) e o fandom de Genshin Impact, o qual faria o estrago irreversível.

Aqui, podemos dizer que, se eu dividisse certinho, eu teria escrito dois livros pequenos.

Uma printscreen do site Archive of Our Own, da aba estatísticas, em fundo preto, onde se pode ver a métrica 'contagem de palavras'; o restante está borrado
Uma printscreen do site Archive of Our Own, da aba estatísticas, em fundo preto, onde se pode ver a métrica 'contagem de palavras'; o restante está borrado
Imagem das estatísticas do Ao3 de 2021 e 2022 — reprodução.

Esse foi o momento onde o trem descarrilhou. Em 2021, escrevi nada mais, nada menos, do que 216.166 palavras. E, no ano seguinte, foram 308.951 palavras. Sendo muito sincera com quem estiver lendo este texto: não faço a menor ideia de como isso aconteceu. Foi, realmente, um frenezi.

Na época, eu divulgava minhas fanfics no twitter, ainda antes da compra pelo novo dono. E, com todo o alvoroço da pandemia, as pessoas ficando mais e mais deslumbradas com a ideia de ter seguidores, números altos, de pertencer a algo… eu também quis fazer parte. Também quis ser reconhecida. Também achei que aquilo era a solução.

No fim, era somente fanfic. No fim, era para ser somente uma brincadeira. Só que, nessa busca incansável por uma moeda intangível, eu não só adoeci — fisicamente, com crises que me levaram ao psicólogo — como também perdi a identidade de escritora que levei anos tentando moldar.

Nos anos de 2021 e 2022, eu mudei a forma de escrever, justamente para também conseguir traduzir meus textos com mais naturalidade para que os gringos pudessem ler — e, efetivamente, eles liam. Eu tinha bastante comentários. Só que eu era mais uma, como tantos, dentro do fandom de Genshin; sequer era lembrada ou cogitada quando queriam fazer algo em grupo (quando a maioria desses grupos eram somente panelinhas de pessoas que conversavam pelos bastidores, fui descobrir tempos depois).

Nunca escrevi tanto na minha vida e, também, nunca me senti tão insatisfeita com tudo o que eu havia produzido. Foram um total de 62 histórias escritas para Genshin Impact, em português e inglês. Histórias que não sinto que me ajudaram em nada quanto escritora — na verdade, só me fizeram duvidar da minha própria capacidade, me fizeram duvidar da minha voz narrativa, de minhas ideias e de toda uma jornada que vinha cultivando durante a vida toda.

Quantos livros foram escritos nesse período? Se eu colocar uma média de 40.000 palavras para um livro, teriam sido treze livros e uma parte de um décimo quarto. Histórias que releio hoje e não sinto qualquer prazer nelas. Sequer falo da existência — e estão lá porque eu quero que essa parte da minha jornada esteja ali. Para eu olhar e me lembrar desse momento e não querer repeti-lo.

Foi, talvez, a minha primeira grande crise com fandom — o que lentamente foi me levando para as minhas originais. Em geral, todos os jogos da Hoyoverse sofrem disso, para mais ou para menos. Genshin continua sendo, de longe, o pior. E vejo, por reclamações aqui e ali, que outros fandoms estão da mesma forma. Tenho grandes teorias sobre o motivo disso, mas o post de hoje não é sobre esse assunto de todo modo.

Uma printscreen do site Archive of Our Own, da aba estatísticas, em fundo preto, onde se pode ver a métrica 'contagem de palavras'; o restante está borrado
Uma printscreen do site Archive of Our Own, da aba estatísticas, em fundo preto, onde se pode ver a métrica 'contagem de palavras'; o restante está borrado
Imagem das estatísticas do Ao3 de 2023 e 2024 — reprodução.

Os anos seguintes, quando migrei para League of Legends, foram mais sutis em comparação: 78.976 e 55.902 respectivamente. São histórias que algumas me agradam, outras nem tanto, mas eu estava retomando as rédeas da minha escrita outra vez — me sentia infinitas vezes melhor comigo mesma e com minhas ideias. Ainda fazia a versão em inglês de algumas delas, mas após essa breve estadia no fandom de League, decidi que não mais escreveria em inglês em momento algum.

Porque eu sei que essa decisão foi o que mais me adoeceu, pelo simples fato de eu ser brasileira demais para querer espalhar minhas ideias em língua inglesa — e porque eu sinto um prazer absurdo escrevendo em português de todo modo.

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Imagem das estatísticas do Ao3 de 2025 — reprodução.

Em 2025, tive outro grande momento: foram 149.610 palavras. Porém, eu sinto que, aqui, eu realmente tive um progresso. Fiz duas fanfics capituladas, coisa que não fazia desde a minha adolescência (por sofrer de grande inconstância e desistir da ideia depois de um tempo). O cansaço aqui veio por outro motivo.

Quando estava escrevendo Alguns passos até você, eu fiz uma promessa de que seria uma história feita em 30 dias, um capítulo por dia. Eu queria muito conseguir o Lighter no Zenless Zone Zero e usei isso como uma forma de magia/amuleto para chamá-lo (coisas de jogador de gacha). A ideia era simples e despretenciosa, tanto que o primeiro capítulo teve singelas 200 palavras.

O problema foi que ela se tornou um monstro de 58.070 palavras ao final — nem eu, nem meus amigos acreditávamos onde isso havia chegado. E eu escrevi e postei, religiosamente, por trinta dias. Foi um experimento interessante — não o recomendo para absolutamente ninguém, porque não vale a pena.

Seguido dela, eu emendei na história Antes da Queda. Essa, ao contrário da outra, foi uma história que eu estava com muita vontade de desenvolver — pelos temas sensíveis, pela relação entre as personagens — e que levou mais ou menos cinco meses para ficar pronta. Os capítulos eram maiores e mais densos. E, apesar de ter planos para mais três capítulos como epílogo, não senti vontade alguma de desenvolvê-los.

Só que, graças a essas duas histórias, esse ano eu criei coragem para voltar a desenvolver meus universos originais — agora, acredito que tenha maturidade o suficiente para escrever de maneira coerente uma história capitulada. Contudo, revirando os montes de manuscritos que eu tinha, percebi que meu trabalho será outro: o de polir e desenvolver os miúdos desses mundos. Além, claro, de precisar ter disciplina para contar a história principal, deixando de lado algumas vontades particulares que eu tenho.

Até agora, estou parada, pois tenho outras coisas a resolver. E, como escrevi muito ano passado, sinto que não há necessidade de ter pressa esse ano.

O blog, também, tem me ajudado a clarear muitas ideias — vontades que, como já expressei anteriormente, não cabem em um texto narrativo/prosa. Esse, por exemplo, era um tema que eu sempre quis desenvolver e expor a fundo, pois acho importante, especialmente no momento em que estamos, onde as pessoas querem muitos números, muitas palavras e recorrem até mesmo à IA para construir seus textos.

Eu precisei reaprender a me apaixonar pelo processo. Gostaria que outras pessoas também se apaixonassem pelos próprios processos, ignorando os resultados. Porque, em arte, o resultado é o que menos importa na maioria das vezes. E, com textos, é mais um trabalho de lapidar do que construir somente.

Para mim, ficou a dura lição de que eu preciso manter esse meu termômetro sempre equilibrado: se for demais, vai me causar febre. Se for de menos, vai me causar hipotermia.

É, também, uma forma de dizer que: se eu der uma sumida do blog, não é por mal. É porque eu preciso ponderar o quanto eu vou escrever as coisas — e esse lugar não é uma obrigação. É meu lugar de apreço, um espaço que lentamente estou construindo para falar abertamente sobre as coisas.

Tenho muitos planos, coloquei eles no papel para não perder as ideias, mas depois de vários dias postando constantemente, resolvi que também preciso respirar, planejar, deixar as coisas cozinharem. Tanto que, vocês não sabem, mas todos os rascunhos do blog eram datados — e eu mudei. Ao invés de data, comecei a numerá-los, porque dessa forma, eu posso deixá-los arquivados e ir postando calmamente, revisando, reconstruindo. Especialmente esses que tem bastante imagens.

Espero também que esse relato seja de inspiração para outras pessoas, para desacelerar, respeitar seu próprio processo, se apaixonar por ele, porque não há satisfação melhor do que você ser apaixonada pelo processo de construir algo do zero!

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